"Estádios do Brasil não devem nada aos da Europa e dos EUA", diz arquiteto responsável pelo Mané Garrincha

21/06/2014 - 16:16
Eduardo Castro Mello acompanhará Brasil x Camarões em Brasília. Escritório dele também projetou a Arena Pantanal e a reforma do Maracanã

Em total clima de Copa do Mundo, o Brasil inteiro está na contagem regressiva à espera das 17h de segunda-feira (23.06), quando a Seleção Brasileira e o time de Camarões entram em campo para a terceira e última partida do Brasil na fase de grupos do Mundial.

Depois de duas quebras históricas de recorde de público nos dois primeiros duelos da competição na capital federal (68.351 torcedores acompanharam Suíça x Equador no Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha e 68.748 torceram das arquibancadas no confronto entre Colômbia e Costa do Marfim) a expectativa é de que a arena brasiliense pela primeira vez supere a marca de 70 mil pessoas.

Um torcedor em especial acompanhará as emoções de Brasil x Camarões com um sentimento diferente dos demais fãs de futebol que estiverem no Mané Garrincha. Aos 68 anos, o paulista Eduardo Castro Mello foi o arquiteto que projetou o estádio da capital. Ele assistirá em Brasília a sua primeira partida da Copa do Mundo do Brasil dentro de uma arena.

Além do estádio de Brasília, escritório de sua família, o Castro Mello Arquitetos Ltda., esteve à frente também dos projetos de outros dois palcos de partidas desta Copa do Mundo: a Arena Pantanal, em Cuiabá, e o projeto de reforma do Maracanã.

Emocionado por ver os estádios que projetou sendo usados em plena capacidade no Mundial, Eduardo Castro Mello conversou neste sábado (21.06) com o Portal da Copa e deu sua opinião sobre as arenas brasileiras, sobre como imagina que elas devam ser utilizadas após a Copa do Mundo e afirmou que, agora, o Brasil não deve nada em termos de estádios ao que existe nos países desenvolvidos da Europa ou nos Estados Unidos.

Luiz Roberto Magalhães/Portal da Copa#Eduardo Castro Mello assistirá um jogo de Copa do Mundo pela primeira vez no estádio que projetou

Getty Images#Estádio Nacional, Maracanã e Arena Pantanal

Por ser uma pessoa tão envolvida com o Estádio Mané Garrincha, qual é a expectativa do senhor para Brasil x Camarões?

Eduardo Castro Mello: A parte mais importante de um projeto de arquitetura e ver a obra realizada. Eu já tive uma primeira experiência com a Copa das Confederações em Brasília (a partida de abertura da competição, entre Brasil e Japão, foi disputada no Estádio Mané Garrincha, em junho do ano passado) e agora, no evento que é o mais importante, na Copa do Mundo, felizmente vou poder ver um jogo do Brasil. Estou muito entusiasmado e ansioso para ver tudo funcionar direito e espero que os torcedores gostem bastante do estádio. Já tive algumas informações de que o resultado está sendo positivo, mas nada vai ser como ver de perto e sentir a emoção do momento.

Nas primeiras duas partidas da Copa em Brasília o público dentro do estádio, somado, foi de 137.099 pessoas. As pessoas têm elogiado bastante a arena. Como o arquiteto do projeto, como o senhor reage a esses elogios?

Eduardo Castro Mello: Eu recebo muito bem, porque tivemos uma parcela contrária quando decidimos juntamente com o Governo do Distrito Federal fazer um estádio com capacidade de mais de 70 mil lugares. O governo local pretendia fazer a abertura da Copa em Brasília e nós fizemos o projeto dentro dessa diretriz. A gente ouviu muitas pessoas que diziam que 40 mil lugares seriam suficientes e que não precisava mais do que isso. Mas com o espetáculo que estamos tendo aqui em Brasília, com 68 mil pessoas no estádio a cada jogo, isso mostra que aquela ideia inicial (de 72 mil lugares, a capacidade máxima da arena na capital) estava perfeita. É um estádio que vai ter uma vida própria, sim. Falar em elefante branco é uma bobagem muito grande.

Como têm sido as avaliações dos três estádios que seu escritório projetou e que retorno você tem tido no que diz respeito ao papel das arenas no Mundial até aqui?

Eduardo Castro Mello: Fiquei muito feliz porque no começo (do processo de projeto dos estádios) nós tentamos agrupar todos os 12 arquitetos que estavam participando em torno de um projeto maior, do Brasil. Ou seja, a arquitetura brasileira sendo apresentada para o mundo. Nós éramos muito conhecidos com a arquitetura de Brasília e durante décadas ninguém conhecia mais nada da arquitetura do Brasil a não ser as grandes obras aqui de Brasília. Esse momento pré-Copa foi único porque nós pudemos reunir arquitetos de várias idades e gerações projetando essas obras que hoje são exemplos para o mundo. Eu recebi um artigo que veio dos Estados Unidos fazendo um comparativo das arenas da Copa do Mundo no Brasil em relação ao que existe na Europa e nos Estados Unidos e ele fazia elogios enormes. Principalmente na questão do legado. Algo que nos preocupou muito durante a execução dos projetos foi a sustentabilidade dessas obras todas, ou seja, pensar nos projetos como soluções e não como problemas, de modo que a gente pudesse ter uma manutenção com custo reduzido, o que só vai ajudar no dia a dia das arenas depois da Copa.

Para preparar o projeto das arenas com as quais o seu escritório esteve envolvido você visitou muitos estádios na Europa, nos Estados Unidos e na África do Sul, que foi sede da Copa de 2010. Em que nível o Brasil está hoje em termos de arenas em comparação com o resto do mundo, principalmente com o mercado de estádios europeu e norte-americano?

Eduardo Castro Mello: Não ficamos atrás de nenhum país. Hoje estamos nas mesmas condições e em pé de igualdade. O que varia muito é a questão econômica. Alguns países, como a Rússia, que vai fazer a próxima Copa (em 2018), ou o Catar (que sediará o Mundial em 2022), têm a possibilidade de fazer estádios que extrapolam, com projetos mirabolantes e diferentes daqueles que fizemos aqui. Nós fizemos projetos com os pés no chão e voltados para a realidade do Brasil. Hoje, se fôssemos convocados para fazer projetos para fora do país, como já estamos sendo, é porque somos reconhecidos. Nossos projetos foram analisados pelas pessoas de fora e eles chegaram à conclusão de que estamos gabaritados para fazer projetos em qualquer outro local do mundo.

Depois da Copa do Mundo, o Brasil entra em um novo estágio dessas arenas. E ele envolve a capacidade de manutenção dos estádios e o desafio de organizar um calendário de modo que eles não fiquem subutilizados e, pelo contrário, possam ser, de fato, arenas multiuso com finalidades além do futebol. Como você vê a questão de uso dos estádios depois da Copa do Mundo?

Eduardo Castro Mello: Acho que esse é um setor que tem que estar na mão da iniciativa privada e que o governo não deve tomar para si essa incumbência. Acredito que a iniciativa privada tem pessoal muito especializado e que pode gerir todos esses estádios com um resultado financeiro excelente. Então, acho que o caminho natural para todos eles é estar com um grupo que possa ter uma agenda de três anos já lotada, com diversos eventos, e sei que já existe uma demanda muito grande, principalmente falando de Brasília. Essa é uma cidade que qualquer espetáculo que se faça sempre terá um ótimo público presente. Brasília só não tinha um local adequado. Agora tem.

Conheça os detalhes dos estádios:

» Estádio Nacional Mané Garrincha

» Maracanã

» Arena Pantanal

Luiz Roberto Magalhães, do Portal da Copa em Brasília

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