Artigo: Cartão vermelho para o racismo, por Aldo Rebelo

12/03/2014 - 13:47
O racismo é uma das infâmias mais antigas e resistentes desde que o mundo é mundo

O Ministério do Esporte vai relançar o livro O Negro no Futebol Brasileiro, publicado originalmente em 1947 pelo jornalista Mário Filho e entronizado como um estudo clássico do esporte no País. Em edição bilíngue, a obra insere-se no propósito de realizarmos uma Copa do Mundo sem racismo. E mais que isso: um reconhecimento da contribuição do negro à formação social brasileira e exaltação à mestiçagem que nos distingue como nação.

O racismo é uma das infâmias mais antigas e resistentes desde que o mundo é mundo. As abolições da escravatura, o avanço geral do processo civilizatório, o progresso dos direitos humanos atenuaram sua prática institucionalizada, mas a discriminação e o preconceito sobrevivem não mais como políticas de Estado e sim nas relações sociais e de trabalho. No esporte aparece, intermitente mas sempre abjeto, em manifestações de torcedores contra jogadores negros – ainda que a torcida não seja um enclave ariano.

Ao contrário, o último episódio de repercussão internacional, quando o brasileiro Tinga, do Cruzeiro, em jogo com o Real Garcilaso pela Libertadores, foi apupado por guinchos que o relacionavam ao macaco, ocorreu no Peru. O país é fortemente miscigenado. A uma pesquisa de 2006 do Instituto Nacional de Estatística e Informação a população declarou-se mestiça (59,5%), quíchua (22,7%), aimará (2,7%), amazônicos (1,8%), negra/parda (1,6%), branca (4,9%) e outros (6,7%).

Como podem membros de uma nação com tal composição étnica, construída com o esforço comum do colonizador espanhol branco, índio nativo e escravo africano grunhir num estádio de futebol que negro é macaco?

O conceito de raça já foi demolido pela Ciência. Sobrevive como estigma cultural, embora ninguém no mundo esteja imune à mestiçagem, como demonstram as pesquisas genéticas. Um branco que hostiliza um negro ou um negro que discrimina um branco deveriam saber que carregam em seu DNA genes que determinaram a cor da pele do outro.

Se é episodicamente contaminado por tais vilanias, o esporte mais popular do mundo, elevado à categoria de arte justamente pelo bailado dos jogadores negros, propicia em seu campeonato mundial a oportunidade de darmos o cartão vermelho a essa atitude infame.

Aldo Rebelo
Ministro do Esporte

Artigo publicado na edição de sábado (08.03) do Diário de S. Paulo

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