Brasileiros adotam hermanos como time do coração

25/06/2014 - 20:57
Boteco argentino recebe maioria de paulistanos para torcer pelo arquirrival do Brasil

Fotos: Adalberto Leister Filho/Portal da Copa#“Sou Argentina de coração. Não tem como explicar”, definia Patrícia Aliano, que engrossava a torcida pelos hermanos no bar Moocaires, mistura de Mooca (zona leste de São Paulo) com Buenos Aires.
A torcida pela Argentina contra a Nigéria, nesta quarta-feira, foi engrossada por uma maioria de brasileiros que debandaram sua preferência para o país vizinho. “Se tiver uma final entre Brasil e Argentina, vou torcer pela Argentina, com certeza”, acrescentava ela, que planeja fazer neste ano a primeira viagem para Buenos Aires.

O bar, aberto há sete anos pelo argentino Cristian Galarza, tornou-se um reduto para seus conterrâneos em São Paulo. Todos os jogos da equipe na Copa do Mundo são transmitidos em telão. Mas a maioria do público presente na vitória que deu o primeiro lugar do Grupo F à Argentina era de brasileiros fascinados pelo país vizinho. A decoração é recheada de flâmulas dos principais clubes do país, além de pôsters de Maradona, Messi e do papa Francisco I. As paredes mostram imagens que lembram o Caminito, famosa rua turística do bairro de La Boca, em Buenos Aires. As tirinhas de Mafalda, personagem de história em quadrinhos desenhada por Quino, ilustram todo o corredor que leva ao banheiro. As mesas têm mais imagens de Maradona e escudos de Boca e River Plate.

Para os brasileiros, é difícil explicar a predileção pelo arquirrival da seleção de Neymar e Fred. “Fiquei 40 dias na Argentina quando era juvenil do Palmeiras, para disputar um torneio, e voltei fascinado. Eles realmente gostam de futebol e sabem torcer”, define Eduardo Molina, que pendurou as chuteiras ainda na categoria júnior, por causa de uma lesão no joelho.

Antes do início do jogo, a torcida parecia tímida, até que um brasileiro provocou: “Que desânimo. Parece torcida do Brasil. Vão cantar: ‘Soy argentino, com muito orgulho, com muito amor?’”, provocou.
Foi o estopim para o grito de guerra da turma, criado especialmente para a Copa de 2014: “Brasil, me diga como é. Ter seu papai em casa. Juro, ainda que passem os anos, nunca vamos nos esquecer. Que Diego [Maradona] te driblou. Que Cani [Caniggia] te vacinou. Que estás chorando desde a Itália. Vocês vão ver o Messi. Ele vai trazer a Copa. E Maradona é melhor do que Pelé”, entoou o público, caprichando no sotaque do “Pelê” e relembrando a vitória da Argentina, que eliminou o Brasil da Copa de 1990, na Itália, último confronto entre as seleções em Mundiais.

O jogo começou movimentado, e brasileiros e argentinos mal haviam festejado o primeiro gol, de Messi, quando viram Musa empatar para a Nigéria. A Argentina dominava, mas tinha dificuldade de passar pelo bom goleiro Enyeama, do Lille, da França. “Esse cara é muito bom. Encaixa a bola. Não solta”, lamentava um brasileiro após mais uma chance desperdiçada pela Argentina.

O gol de Messi, de falta, já nos acréscimos do primeiro tempo, fez com que Hermanos e brasileiros voltassem a pular. “Quem não salta é inglês. Quem não salta é inglês”, berravam os torcedores, em referência à Inglaterra, adversária nos campos de futebol e nos de batalha na Guerra das Malvinas. “Quem não salta é brasileiro. Quem não salta é brasileiro”, improvisou um dos torcedores, em seguida, para a empolgação de todos.

Tensão e alegria

O começo do segundo tempo serviu de desalento para o público, com novo empate da Nigéria, após gol de Musa. Mas a tensão deu lugar à felicidade apenas três minutos depois, com o gol da vitória, marcado pelo zagueiro Rojo. Nem a saída de Agüero, machucado, além de Messi e Higuaín, preservados pelo técnico Alejandro Sabella para as oitavas-de-final, diminuiu a animação do grupo.

“Te sigo desde pequeno. Vou para todo lado. Eu te venho ver, descontrolado. E mais te apoio, se está perdendo. Um sentimento, não tentem entendê-lo. Não se compara, com outra torcida. Sou argentino, nas horas boas e nas más”, cantava o grupo, estendendo faixas com imagem de Maradona e bandeiras da Argentina. “Vamos, vamos, Argentina! Vamos ganhar! Vamos, vamos, Argentina! Vamos ganhar! Eu te sigo em todos os lugares em que vás. Cada vez te amo mais”, berrava o grupo a cada ataque da equipe.

O apito final detonou nova animação pela campanha perfeita da Argentina na primeira fase do Mundial. “Voltaremos! Voltaremos! Voltaremos outra vez! Voltaremos a ser campeões, como em 86!”, entoavam abraçados brasileiros e argentinos, referindo-se ao último título dos hermanos, na Copa do México, há 28 anos.

Entre os poucos gatos-pingados argentinos presentes no bar estava Hernán Acuna, que acreditava ser possível uma final entre Brasil e Argentina. “O novo Maracanazo será da Argentina”, afirma ele.

Se em campo ninguém pode prever o resultado de um clássico como esse, ao menos nos gritos de arquibancada, os Hermanos mostram criatividade para apoiar sua seleção.

Adalberto Leister Filho, do Portal da Copa em São Paulo

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