Crianças israelenses e palestinas se unem pela causa do futebol durante a Copa do Mundo

08/07/2014 - 12:40
Três jovens de cada um dos países em conflito formam o “Time da Paz” no Festival Football for Hope no Rio de Janeiro

No início do mês, um palestino de 16 anos foi assassinado por radicais israelenses em Jerusalém numa aparente resposta à morte de três outros adolescentes nascidos em Israel. Os crimes agravaram as já complicadas relações entre os dois lados. O risco de conflito armado é iminente. Enquanto isso, no Brasil, um time formado por três jovens de cada país disputa em plena harmonia o Festival Football For Hope (Futebol pela Esperança), evento que faz parte da programação oficial da Copa do Mundo.

O chamado “Time da Paz” reúne integrantes de programas sociais de duas instituições que atuam na região de conflito, o israelense The Peres Center for Peace – que tem 1.400 crianças – e o palestino Mifalot – com cerca de 200 participantes. Ambas realizam há 20 anos projetos de integração de crianças e adolescentes das duas nacionalidades por meio da prática do futebol, como o Know your Neighbor (Conheça seu Vizinho) e o Play for Peace (Jogo pela Paz). 

O palestino Abdullah Khraiwesh, 16 anos, podia ser uma das vítimas do conflito. Conta que onde vive, na periferia de Nablus, as condições de vida e, consequentemente, para se jogar futebol são precárias. Não há campos com grama. Os jovens se dão por satisfeitos por baterem bola em quadras de terra ou asfalto duas vezes por semana.

Foto: Divulgação#Futebol é visto como forma de unir lados politicamente opostos

Entender o lado oposto

Abdullah reconhece que ele e seus amigos dificilmente terão no esporte o sucesso de seus ídolos Messi, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho. No entanto, bem sucedido para eles já é quem consegue entender o lado oposto no dia a dia. A relação durante o torneio realizado no Rio de Janeiro até esta quarta-feira (10.07) se torna uma amostra de fraternidade num caminho cheio de dúvidas.

“A relação entre os dois lados no time é muito boa, muito positiva, há muito respeito entre nós. Para mim é uma grande oportunidade de humanizar o outro lado, os israelenses ganham um rosto para nós. Eu adoraria que houvesse paz. Sinto que faço parte de um esforço grande para isso. Eu deixo de lado a situação política e jogo futebol”, afirma Abdullah, entre um passe e outro com seus colegas de time.

Um deles é o israelense Omer Dadon, também de 16 anos, que vive em Holon. Lateral-esquerdo fã do brasileiro Marcelo, ele mostra uma maturidade incomum para sua idade. Principalmente para falar do conflito de seu país com os palestinos.

“No início sempre via coisas ruins na mídia. Agora conheço melhor os palestinos e tenho uma percepção mais realista de como é viver na posição deles. Eu sei que a situação está realmente ruim entre os dois lados. Nós tentamos não pensar nisso e valorizamos o fato de estarmos juntos aqui”, explica o jovem, que também acredita estar colaborando para a paz. Eu acho que a mudança não virá dos políticos, mas das pessoas. Se nós passarmos a nos comunicar mais, vai ser muito melhor.”

Contraste social

As duas instituições enfrentam problemas frequentes para manter seus programas de coexistência pacífica entre palestinos e israelenses em áreas de conflito. Há um grande contraste social entre as duas realidades e, na Palestina, os programas não recebem qualquer reconhecimento do Estado. No entanto, a procura é grande.

“Os pais demonstram muito interesse porque é uma possibilidade de seus filhos terem, de graça, educação e aprenderem a jogar futebol. Além das práticas nos campos, os jovens se encontram em seminários pela paz. O interesse vem aumentando e nós acreditamos que as gerações mais novas serão capazes de espalhar estes ensinamentos para uma convivência pacífica”, diz Sivan Hendel, gerente de projetos esportivos do Peres Center.

Se depender da atuação dos jovens no festival, um passo grande está sendo dado. “A FIFA chama este festival de Futebol pela Esperança e nós acreditamos que fazemos parte desta esperança. Nós estamos cientes do problema político entre Israel e Palestina, mas estamos colocando isso de lado para continuar a pregar a mensagem de paz com que viemos para cá”, conta Abdullah.

Football for Hope

O Football for Hope é um festival promovido durante a Copa do Mundo. Conta com 32 times formados por projetos da FIFA em 25 países. Durante o Mundial de 2014, o evento está sendo realizado na Vila Olímpica Mané Garrincha, no Caju, comunidade que recebeu recentemente investimentos das três esferas de governo para a implantação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Além do torneio de futebol, os jovens envolvidos no festival participam de atividades culturais e educacionais

Giuliander Carpes, do Portal da Copa no Rio de Janeiro

Notícias Relacionadas

Vila Olímpica do Caju, que recebe a competição, é considerada pelo presidente da FIFA o 13º estádio da Copa do Mundo
+
Representantes de religiões espalhadas pelos quatro continentes enviaram mensagens de saudação, encorajamento e contra o racismo
+
Ação faz parte do Festival Football for Hope, que teve início na manhã terça (20.05) na capital fluminense
+
Valcke aponta pesquisa que mostra que 75% dos entrevistados têm uma opinião positiva sobre o Mundial. Arenas passam para período de exclusividade nesta semana e equipes do COL realizam ajustes operacionais nos palcos dos jogos
+