Crônicas de Nelson Rodrigues: O grande sol do escrete

26/03/2014 - 10:11
Os textos foram publicados no livro “A Pátria de Chuteiras”, lançado em 9 de dezembro de 2013. São 40 crônicas selecionadas em um trabalho de pesquisa de mais de um ano

O Portal da Copa publica, até o mês de junho, às vésperas da Copa do Mundo, uma série de crônicas escritas por Nelson Rodrigues entre as décadas de 1950 e 1970. Os textos foram reunidos no livro “A Pátria de Chuteiras”, lançado em 9 de dezembro de 2013 pelo ministro do Esporte, Aldo Rebelo. São 40 crônicas selecionadas em um trabalho de pesquisa de mais de um ano. O futebol foi a metáfora utilizada por Nelson Rodrigues para a apresentação e a divulgação de um Brasil eficiente e vitorioso.

Confira abaixo a décima oitava crônica da série: " O grande sol do escrete”

O grande sol do escrete 1

"Disse Rilke que a glória, o que chamamos glória, é a soma de mal-entendidos em torno de um homem e de uma obra. E não só a glória. Também a desonra pode ser outra soma de mal-entendidos."

Disse Rilke que a glória, o que chamamos glória, é a soma de mal-entendidos em torno de um homem e de uma obra. E não só a glória. Também a desonra pode ser outra soma de mal-entendidos. Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado. Eu próprio, certa vez, desprezei um homem, tive por esse homem a maior náusea ética. Não podia vê-lo sem que minha úlcera desse pulinhos de rã. Sem fazer segredo do meu horror, chamei-o, em público, de cadáver moral.

Eu teria, na ocasião, 17 anos. E o adolescente vive de falsos horrores. Tempos depois, verifiquei que estava errado, errado de alto a baixo. O homem que eu supunha infame era, na verdade, uma dessas nobilíssimas figuras exemplares, um falso defunto moral. Quase um santo.

Eis o que eu queria dizer: — dedico esta crônica aos equívocos que, em certos casos, inauguram a estátua e, em outros, desencadeiam a vaia. Começarei falando de Pelé, o divino crioulo.

Muitíssimas vezes, Pelé foi estátua e, muitíssimas vezes, foi vaia. Eu me lembro de um jogo do escrete em que jogou mal ou, como diz a gíria, jogou pedrinhas. E, no fim de certo tempo, explodia a ira da multidão. No futebol, a apoteose está sempre a um milímetro da vaia. Não sei se todos se lembram de um fato muito curioso. Num jogo Brasil x Inglaterra, aqui, no ex-Maracanã, ao ser anunciado o nome de Julinho, todo o estádio vaiou. Mas começa o jogo. Julinho fez uma série de jogadas perfeitas, irretocáveis. Em dez minutos, o que era humilhação passou a ser apoteose. E assim Julinho teve a fulminante reabilitação.

Volto a Pelé. Repito que, naquela tarde, ele foi pouquíssimo Pelé. E, então, começou a fúria popular. A ninguém ocorria que o supercraque não precisa jogar bem. O perna de pau é que tem de se matar em campo. De mais a mais, o gênio pode ter as suas nostalgias da burrice. Em outro plano, Sartre, o grande Sartre, andou por aqui e disse coisas de que se envergonharia Luvizaro. Podia dizê-las, porque era Sartre. Por exemplo, afirmou o grande homem: — “O marxismo é inultrapassável”. O já citado Luvizaro não diria isso. Ele sabe que, daqui a quinze minutos, o marxismo pode estar ultrapassado por coisa muito melhor. Mas o que sabe Luvizaro Sartre pode ignorar, porque é Sartre.

E, em qualquer clássico ou pelada, Pelé pode fazer tudo, porque é Pelé. Se abrir a Revista do Rádio2 no meio do campo, estará usando um dos privilégios do gênio. Mas a multidão não perdoa, em Pelé, um passe errado. Se vinha o adversário e frustrava o seu drible, Pelé era quase apedrejado como uma adúltera bíblica. Éramos, ao todo, umas 150 mil pessoas. E dizíamos, uns aos outros, que Pelé já não era o mesmo. Houve um, mais afoito, que declarou: — “Pelé está morto.”

Ninguém protestou. Ou por outra, houve, sim, um protesto. Estava lá o Manoel Duque, que reagiu e gritou: — “Pelé continua sendo o maior jogador do mundo.” E, como um outro resmungasse, o Duque repetia: — “O maior jogador do mundo, em todos os tempos.” Mas, como ia dizendo: — vaiaram Pelé os noventa minutos. Posso dizer que influiu na vaia, além do mais, um certo cansaço, um certo tédio do mito. A multidão precisa destruir os mitos que promove.

A partir de então, não só o homem de arquibancada, também os “entendidos”, também os técnicos, também os cronistas começaram a meter a picareta na estátua de Pelé. Tem sido uma alegre demolição. O crioulo passou a ser o responsável por todos os males que afligiam a seleção. Fui a um sarau de grã-finos e lá ouvi alguém jurar: — “Pelé morreu para o futebol.”

Chegou a correr a notícia de que seria barrado do escrete e do Santos. Ou por outra: — do Santos, não, porque seu nome ainda é bilheteria. Cheguei a imaginar que, humilhado, ofendido, ele próprio saísse da seleção. Mas diz a minha vizinha gorda e patusca: — “Nada como um dia depois do outro.”

Já na classificação, Pelé teve momentos de Pelé. Mas insistíamos, obsessivamente: — “Não é o mesmo! Não é o mesmo!” E, para todo mundo, menos o Manoel Duque, já deixara de ser o maior jogador do mundo. Duque vivia repetindo: — “Mesmo jogando a metade do que sabe, ainda é o maior.” Até que chegou a primeira partida do Brasil, na Copa contra os tchecos. Ora, segundo todos os críticos de futebol, a Tchecoslováquia era um dos mais formidáveis concorrentes ao título mundial. Enquanto o Brasil se preparava em quinze dias, ela se cuidou durante quatro anos. Era assim uma potência da Jules Rimet.

Desde os primeiros momentos sentiu-se que o Rei era um falso defunto do futebol ou, mais do que isso, um salubérrimo defunto, a explodir de saúde. Aliás, recuando um pouco, eu poderia falar do jogo recente, aqui, no Mário Filho, contra a Áustria, onde Pelé foi maravilhosamente Pelé. Mas o que importa, de momento, é a nossa estreia de quarta-feira. Foi, em primeiro lugar, um homem isento de idade, isento de tempo, com uma vitalidade de 17 anos. Defendeu e atacou, estava em todas as posições ao mesmo tempo. Inventou jogadas que nenhum outro jogador faria, em qualquer tempo.

Foi no primeiro tempo? Não: — no segundo. Exatamente, no segundo tempo. l x l ainda no marcador. Recomeça a partida e Pelé estava ainda no campo brasileiro. Apanha a bola. E, súbito, recebe a visita do próprio gênio. Viu que o goleiro tcheco estava fora de posição, muito adiantado. Fez, então, o que não ocorreria a ninguém. De onde estava, deu um prodigioso tiro de cobertura. A TV, que não sabe fantasiar e tem o escrúpulo da mais exata veracidade, descreveu-nos o lance.

A câmera, numa tomada por trás do gol, mostra toda a curva implacável da bola. Por um momento, ninguém entendeu. Por que Pelé não passou? Por que atirava de tão espantosa distância? E o goleiro custou a perceber que era ele a vítima. Seu horror teve qualquer coisa de cômico. Pôs-se a correr, em pânico. De vez em quando, parava e olhava. Lá vinha a bola. Parecia uma cena d’Os três patetas. E, por um fio, não entra o mais fantástico gol de todas as Copas passadas, presentes e futuras. Os tchecos parados, os brasileiros parados, os mexicanos parados — viram a bola tirar o maior fino da trave. Foi um cínico e deslavado milagre não ter se consumado esse gol tão merecido. Aquele foi, sim, um momento de eternidade do futebol.

»Confira a íntegra do livro

Pelé nunca foi tão alto no seu gênio. Mas por que fez isso? Simplesmente, ali o Rei se vingava das nossas vaias. E não só ele: — também o escrete, todo o escrete. Bem sei que as hienas da crônica ainda uivam contra a defesa. “Há falhas, há falhas”, rosnam as hienas (nas minhas crônicas as hienas rosnam). Lendo certos colegas, eu penso num velho episódio. Estava eu em Teresópolis, num edifício de apartamentos. Desci com a cachorrinha. Fazia uma diáfana manhã parnasiana, de um azul de soneto. No jardim, eu tremia. E, de repente, lá da janela, um vizinho pôs-se a esbravejar. Sabem por quê? Porque a cadelinha acabara de sujar o gramado. E, então, o sujeito achou que a porcaria mínima era mais importante, mais transcendente do que o céu, a floresta, a luz, as fontes, os pássaros. Assim fazem os cronistas que esquecem uma exibição deslumbrante para catar falhinhas que têm, cada uma, o tamanho de uma pulga.

Amanhã jogaremos com a Inglaterra. Eu sei que a Inglaterra é grande. Mas nós somos maiores, porque somos Brasil, imensamente Brasil, eternamente Brasil.

O Globo, 6/6/1970

(1) Título sugerido pela edição do livro À sombra das chuteiras imortais (Companhia das Letras, 1993). A crônica foi publicada originalmente na coluna “As confissões de Nelson Rodrigues” com o título “O grande sol do escrete brasileiro”. (N.E.)

(2) A Revista do Rádio, lançada por Anselmo Domingos, circulou de 1948 a 1970. Uma das mais famosas publicações da época, o periódico é um dos símbolos da chamada “Era do Rádio”

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