De gandula na Copa de 1950 a embaixador de Belo Horizonte para o Mundial de 2014

27/06/2014 - 18:40
Prestes a completar oito décadas de vida, o aposentado Elmo Cordeiro mantém intacta a memória de 64 anos atrás, quando viu de perto o maior torneio de futebol do planeta

Sessenta e quatro anos se passaram e a memória de Elmo Cordeiro permanece intacta. Prestes a completar 80 anos (o aniversário será no dia 7 de julho), o aposentado ainda se lembra muito bem do que viveu durante a Copa do Mundo de 1950. Ele era um garoto de 16 anos que trabalhava como office boy quando foi chamado para ser “apanhador de bolas” no primeiro Mundial realizado no Brasil. Quinze Copas e cinco títulos brasileiros depois, Elmo é capaz de citar de cabeça até as escalações das seleções da época, como a Inglaterra, a Suíça, a Bolívia e o Uruguai.

Nascido em Niterói (RJ), Elmo foi morar em Belo Horizonte em 1944, quando já tinha se apaixonado por futebol. Seis anos depois, viveria um dos momentos mais importantes de sua vida. “Eu trabalhava no escritório da empresa que estava construindo o Estádio Independência, era carregador de papéis, entregava recados. Na véspera dos jogos, meu patrão me perguntou se eu iria assistir às partidas. Falei que não, porque não tinha dinheiro. Ele então perguntou se eu queria trabalhar como apanhador de bolas, na época não se usava gandula. Falei ‘quero’. Era uma oportunidade que não podia perder, já tinha futebol no sangue. Os jogos eram às 15h e meio-dia eu já estava aqui (no estádio)”, lembra.

Belo Horizonte era uma cidade arborizada, cheia de jardins e com cerca de 350 mil habitantes. O Estádio Independência, que na Copa do Mundo de 2014 é um dos Centros Oficiais de Treinamento de Seleções, começou a ser construído em 1947, e foi inaugurado no dia 25 de junho de 1950, com a partida entre Iugoslávia e Suíça, que terminou 3 x 0 para os iugoslavos. Além desse jogo, Elmo Ribeiro trabalhou como voluntário nas outras duas partidas da Copa no "Colosso do Horto", como era chamado o estádio: Uruguai 8 x 0 Bolívia e Inglaterra 0 x 1 Estados Unidos.

“Aqui não tinha nada, a não ser o estádio e alguns barracões em volta. Nessas ruas aqui só tinha mato. A evolução foi muito grande”, lembra Elmo, enquanto anda de novo pelas ruas do bairro do Horto, em Belo Horizonte. “São várias diferenças em relação a hoje. A torcida chegava de bonde e os jogadores vinham para o estádio em carros de praça, que hoje são chamados de táxi. Os torcedores vinham de terno, com sapatos de três cores, que eram novidade na época. Naquela época, se você não estivesse de terno e gravata, você não entrava no cinema”, conta.

Para ele, tudo evoluiu para melhor desde então. “A mulher não frequentava estádio, era muito raro. Hoje você vê a participação da mulher, é impressionante. Vejo bastante mulheres participando. É muito bacana isso”, diz Elmo. “As cabines de rádio eram todas de madeira. A imprensa era limitadíssima, não tinha essa parafernália eletrônica. O autofalante era fanhoso feito quem tá gripado”, brinca o ex-gandula. “Hoje o torcedor pega um avião e vai assistir um jogo em outras cidades. Antigamente, para dar notícia de um jogo tinha que pedir linha de manhã para falar à noite. Hoje todo mundo tem um celular. A cidade mudou muito, os veículos de transporte são muito mais confortáveis”, enumera o aposentado. 

Danilo Borges/Portal da Copa#Elmo Cordeiro volta ao Estádio Independência, onde foi gandula de três partidas na Copa do Mundo de 1950

Zebra e comoção

Com seis sedes - Rio de Janeiro (Maracanã), Recife (Ilha do Retiro), Porto Alegre (Estádio dos Eucaliptos), Curitiba (Durival de Brito), Belo Horizonte (Independência) e São Paulo (Pacaembu) -, a Copa de 1950 ficou marcada na história por dois resultados surpreendentes. Elmo Cordeiro viu os dois de perto. O primeiro, ele ainda se lembra muito bem, foi aquela que é considerada a maior zebra da história das Copas: Inglaterra 0 x 1 Estados Unidos.

“Os ingleses eram considerados os inventores do futebol e chegaram com pompas de favoritos. Os Estados Unidos nem tinham futebol. Mas, a exemplo do Brasil na final, a Inglaterra parece que carecia de preparo físico. Quando o americano (Joe Gaetjens) fez o gol ainda no primeiro tempo, a Inglaterra não teve nenhum poder de reação”, lembra Cordeiro, que depois de trabalhar como gandula nos três jogos em Belo Horizonte, deu um jeito de ir para o Rio de Janeiro ver a final entre Brasil e Uruguai.

“Eu tinha um amigo cujo pai tinha um caminhão e levava material para o Rio de Janeiro. Levamos 18 horas para chegar ao Rio, dormimos em um albergue e no dia seguinte fomos ao Maracanã. Chegamos e o estádio já estava abarrotado, não cabia mais ninguém. Mas arrombaram um portão e entrou muita gente. Aí nós aproveitamos e fomos juntos. Fiquei até com o pescoço doendo de tanto que eu esticava para ver o jogo. O Brasil, por falta de preparo físico, desabou depois do segundo gol. Foi uma tristeza geral, todo mundo chorando, saindo devagar do estádio. Foi muito triste”, conta, sobre a derrota do Brasil por 2 x 1, o famoso Maracanazo.

Agora, ele espera melhor sorte para a Seleção Brasileira. “Vamos torcer para o Sobrenatural de Almeida, como diria o Nelson Rodrigues, não interferir na carreira do Brasil. Se Deus quiser seremos campeões”, aposta.

Momento mágico

Embaixador de Belo Horizonte para a Copa de 2014, Elmo Cordeiro teve a oportunidade de ver novamente a seleção da Inglaterra. Ele assistiu ao empate em 0 x 0 entre a seleção britânica e a Costa Rica e de novo viu os ingleses irem embora mais cedo para casa. Dessa vez, no entanto, o que mais o marcou foi a conversa que teve com os gandulas antes da partida.

“Foi um momento muito bom para mim ter encontrado esses gandulas. Falei para que eles aproveitassem esse momento mágico, que eu também vivi. Falei que eles tinham uma missão grande, por serem jovens, de serem úteis ao seu país sempre. E também disse a eles que guardassem, fizessem um arquivo de tudo que ele estão vivendo agora, como eu fiz na minha cabeça, porque eles ainda vão ver muita coisa linda nesse mundo”, emociona-se.

A alegria de poder ver outra Copa no Brasil é tamanha que Elmo Cordeiro acredita em outra edição do torneio no país antes do que todos imaginam.  “Eu não imaginava que 64 anos depois eu iria assistir outra Copa do Mundo no Brasil. E vou falar para vocês um pensamento meu que tenho certeza que vai acontecer: vocês verão uma outra Copa do Mundo no Brasil num espaço de tempo muito mais curto do que vocês imaginam. E por que? Porque a Copa do Mundo até agora no Brasil está sendo um sucesso, de organização, de beleza, de comportamento do público, de tudo. Os estádios são todos lindos, funcionais. Eu vou até jogar para vocês: 2030, se duvidar 2026”, aposta o aposentado, casado há 52 anos e pai de quatro filhos.

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Mateus Baeta, do Portal da Copa

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