Projeto Andar de Novo: “Resultados estão muito acima do esperado”, diz Miguel Nicolelis

29/04/2014 - 10:30
Neurocientista contou que pacientes se emocionaram no primeiro contato com o exoesqueleto. Eles já estão aprendendo a usar a veste robótica que permitirá a um paraplégico dar o pontapé inicial da Copa

Está nos jornais do mundo inteiro, nas principais revistas científicas. Alimenta esperanças de mais de 25 milhões de pessoas que dependem de cadeiras de rodas. E, sim, está no caminho certo: os testes do projeto Andar de novo estão melhores do que o imaginado.

“Os resultados estão muito acima do esperado. Não tínhamos a perspectiva de estar tão adiantados no ponto de vista clínico e ter resultados tão interessantes do ponto de vista neurocientífico da maneira que a gente teve nos últimos meses”, disse o coordenador do projeto, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis.

Na tarde segunda-feira (28.04), um dos oito pacientes paraplégicos que participam desta etapa do projeto realizou a caminhada inaugural com o exoesqueleto, dando 18 passos e três chutes. Outros dois pacientes fizeram trajetos semelhantes, segundo informou Miguel Nicolelis. "Três pioneiros brasileiros que emocionaram a todos nós com a sua coragem e determinação", disse o neurocientista por meio de sua página no Facebook.

O laboratório de neuro-robótica montado em São Paulo tem movimento praticamente 24 horas. Entre uma sala e outra, circulam cientistas do mundo todo dedicados a aprimorar uma tecnologia inovadora que terá a primeira grande demonstração na abertura da Copa do Mundo da FIFA 2014.

Passos de aviador

A estrutura tem nome e sobrenome: Brasil Santos Dumont. Assim os dois primeiros exoesqueletos que chegaram a São Paulo no início de março são chamados pela equipe. Um deles está montado e o segundo, em fase final de montagem.

O exoesqueleto é uma veste que incorpora os últimos avanços da robótica. Com ele, pessoas paraplégicas poderão voltar a andar, como diz o nome do projeto.  Os pacientes são responsáveis por controlar a máquina com a atividade cerebral. Mensagens como a vontade de andar, de se mexer ou de parar são captadas pelo robô para que os movimentos sejam gerados. E, devido à presença de sensores na planta do pé, o exoesqueleto também devolve ao paciente sensações do mundo exterior.

“O exoesqueleto tem 1,78m, quase 1,80m. O peso final não está definido, porque faltam alguns testes. Será algo em torno de 60, 70 quilos. Mas isso é irrelevante porque o paciente não vai sentir, a máquina vai ser responsável pelo equilíbrio do paciente e por controlar o peso do exoesqueleto, enquanto o paciente determina o início dos movimentos, o término e, obviamente, o chute. Os sensores vão ficar na planta do pé e vão entregar esses sinais no braço da pessoa, que vai imaginar as pernas andando, se locomovendo e pisando no chão por meio desse feedback que recebe nos braços”, explicou Nicolelis.

Fascínio na vertical

Antes de conhecer o exoesqueleto, os oito pacientes já haviam experimentado a sensação de ficar na posição vertical novamente, uma vez que diversos testes foram feitos no laboratório com uma veste robótica estática.

Essa etapa foi essencial para o reaprendizado do andar, para que os cérebros dos pacientes incorporassem novamente o trabalho dos membros inferiores.  Mas foi no encontro com o exoesqueleto que os pacientes se emocionaram bastante, segundo o coordenador do projeto.

“A primeira experiência de cada um deles comoveu todos nós. É uma sensação única. Nenhum deles, antes do projeto, imaginou que teria essa oportunidade de novo na vida. Todos os pacientes já entraram no exoesqueleto, testaram e se sentiram fascinados. É uma máquina que não só é inovadora, como é bonita, elegante. Eles disseram, inclusive, que querem a máquina assim mesmo, sem a cobertura que a gente imaginou inicialmente, porque eles acham mais emocionante ver toda a tecnologia envolvida”, disse Nicolelis. Os pacientes estão sendo preservados do contato com jornalistas.

Foto: Frame de vídeo/Divulgação#

Arquibancada virtual

A contagem regressiva para a Copa não mexe só com as expectativas de jogadores e torcedores. A primeira grande demonstração do projeto Andar de Novo será feita em 12 de junho, na Arena Corinthians, em São Paulo, pouco antes do jogo de abertura entre Brasil e Croácia. Usando o exoesqueleto, um dos oito pacientes vai se levantar da cadeira de rodas, caminhar por cerca de 25 metros no campo e dar o pontapé inicial do Mundial.

“Estamos refinando o exoesqueleto e os pacientes estão aprendendo a caminhar com ele, a habituar-se a todas as nuances desse caminhar. É como se você estivesse adquirindo um corpo novo, como se você aprendesse a andar de novo, literalmente. Não é uma máquina passiva, há uma interação nas duas direções, e isso nunca foi feito. A demonstração da Copa é apenas o começo dessa interação”, explicou o neurocientista.

O local em que o pontapé inicial será dado também é levado em conta nos testes. Um moderno ambiente virtual montado no laboratório reproduz a atmosfera de um estádio lotado, com estímulos visuais e sonoros semelhantes.

“Todos os pacientes foram capazes de realizar as atividades mentais que eles precisam para comandar o exoesqueleto nesse ambiente e, nesse sentido estamos tranquilos. Além disso, todos estão sendo acompanhados por um grupo de psicólogos”, disse Miguel Nicolelis.

O neurocientista não tem dúvidas de que tudo sairá como planejado na abertura da Copa, com bilhões de pessoas assistindo, ao vivo, a uma das maiores conquistas da ciência brasileira e internacional. Com um detalhe: um palmeirense de coração dará esse presente ao mundo no estádio do maior rival.  “Na Hora H, meu chapeuzinho do Palmeiras vai estar a postos, não tem problema”, brincou.

Leia também:

» Pontapé inicial da Copa: Projeto Andar de Novo entra na fase de testes com pacientes brasileiros

Atualizado às 11h50

Carol Delmazo – Portal da Copa

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