Rede pública estadual de São Paulo tem alunos de 29 das 32 nacionalidades da Copa

19/05/2014 - 12:27
Apenas Bélgica, Croácia e Gana não tiveram estudantes mapeados. Muitos deles se mostram ansiosos com a proximidade e fazem projeções sobre o Mundial

Fotos: Leonardo Lourenço/Portal da Copa#Brian gostaria de ver Tévez na Seleção ArgentinaQuando o técnico da Argentina, Alejandro Sabella, divulgou a lista de convocados para a Copa do Mundo, confirmando a expectativa de que o atacante Carlos Tevez veria o Mundial pela televisão, houve protesto no país no vizinho. Mas ele também decepcionou um garotinho a milhares de quilômetros dali, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

“Ele podia ter chamado o Tevez, né?”, questiona, decepcionado, Brian Ezequiel, 13. A garra e capacidade de anotar gols do Apache, como o jogador é apelidado, impressionam o menino, que deixou Buenos Aires há oito anos para viver com os pais no Brasil, onde as oportunidades pareciam mais atraentes do que no país natal.

Ao lado de Brian, Josias Ezequiel, 15, paraguaio, e Leonardo Shiguehiru Murata, 12, japonês, ouvem atentos o relato do colega, sentados em um dos bancos da Escola Estadual Canuto do Val, na Barra Funda, zona oeste da capital paulista. E se identificam.

Ambos deixaram seus países de origem logo cedo. Josias, nascido em Assunção, passou anos distante da mãe, que estava em São Paulo, até vir para cá em 2007. Leonardo deixou o Japão com dois anos e vive com os tios, longe dos pais, que continuam na Ásia.

Eles fazem parte dos 7,5 mil estudantes estrangeiros matriculados na rede estadual de ensino de São Paulo – são 94 nacionalidades diferentes, segundo levantamento da Secretaria da Educação do Estado. Brian e Leonardo estão dentro de um grupo um pouco menor, aquele de garotos que verão seus países de origem disputar a Copa do Mundo no Brasil daqui de dentro mesmo. São 2.081 alunos de 29 das 32 nações que jogarão o campeonato – só Bélgica, Croácia e Gana não tiveram representantes mapeados.

“Eu vou torcer para a Argentina. Gosto muito da torcida, daquele chapéu grande, com bolinhas azuis nas pontas, que eles usam”, descreve Brian. “Sou fã do Messi. Minha mãe até já falou que se ela tiver outro filho, ele vai se chamar Lionel”, conta.

Pelo tempo que vive no Brasil ou pela falta de confiança na equipe japonesa, Leonardo prefere se manter em cima do muro na hora escolher um time para vibrar neste Mundial. “Vou torcer para os dois (Brasil e Japão), para quem ganhar”, diz.

#Como o Paraguai não se classificou, Josias se divide entre Uruguai e EspanhaNo caso de Josias, a dúvida é mais compreensível: depois de disputar quatro Copas consecutivas, o Paraguai fez campanha sofrível nas eliminatórias e ficou fora do torneio. Por isso, o garoto conta que ainda não se decidiu. “Estou entre o Uruguai e a Espanha”, afirma.

Cada classe, uma seleção

Os atuais campeões do mundo surgem como opção para o menino paraguaio porque é a seleção que sua classe representa no campeonato disputado internamente no colégio. A atividade faz parte de um projeto interdisciplinar que tem a Copa como mote.

“Toda classe representa um país no torneio. Eles conhecem um pouco mais sobre os aspectos culturais, históricos e geográficos dessas nações”, explica a diretora, Márcia Volpe Santos. “A ideia é, no encerramento do primeiro semestre, socializar esses estudos e expor os trabalhos de cada turma”.

Estudar a cultura de outros países não chega a ser uma novidade na escola Canuto do Val. O colégio está inserido em uma das regiões com maior concentração de imigrantes de São Paulo. Ali, muitas famílias, boa parte bolivianas, tentam a vida principalmente em pequenas confecções.

Segundo a coordenadora de ensino fundamental da escola, Silmara Regina Naftal, 10% dos 500 alunos são bolivianos. “E isso aumenta para 30% se considerarmos os que são filhos de imigrantes da Bolívia”, aponta.

“A escola tem uma preocupação com a inserção desses estudantes. Tem um trabalho de acolhimento”, diz Márcia, que vê a Copa como oportunidade de amplificar as ações de inclusão. “O Mundial serve como uma lição de como receber e acolher essas pessoas de outras nações”.

#Os três fazem parte de um grupo de 7,5 mil estudantes estrangeiros na rede pública estadual de São Paulo

#Leonardo torce pelo Japão, mas não achará nem um pouco ruim uma vitória brasileira

Por que não o Pelé?

Entre os garotos, a ansiedade é grande pelo início dos jogos. O japonês Leonardo pende para a seleção canarinho na hora de revelar seus ídolos, ainda que os motivos não sejam futebolísticos.

“Quero ver o Neymar e o David Luiz. Gosto do cabelo dos dois”, afirma, convencido a se tornar palmeirense por um tio. “Quando eu vivia no Japão ele mandou uma camisa e serviu em mim. Aí fiquei”, simplifica.

Josias transparece sua preferência clubística ao dizer que se inspira em Cássio, goleiro do Corinthians, quando atua sob as traves. Percepção que só aumenta quando ele conta qual sua maior expectativa com a chegada da Copa. “Quero conhecer o estádio do Corinthians, para mim é o mais bonito”.

O menino paraguaio também dá pitaco na seleção de Luiz Felipe Scolari. “Eu tenho saudade de ver o Ronaldinho (com a camisa do Brasil), por causa dos dribles dele. O Felipão errou”, corneta.

Já Brian sonha mais alto. “Seria legal mesmo se o Pelé fosse jovem e pudesse jogar, né?". Os outros dois consentem, rindo.

Leonardo Lourenço, do Portal da Copa em São Paulo (SP)

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