“Sem-ingressos” se reúnem no entorno da Arena Corinthians e fazem festa em Itaquera

27/06/2014 - 13:16
Ao lado de bloqueio por onde só passam torcedores com bilhetes, aposentada dizia querer “sentir o cheiro da Copa” após viajar uma hora de trem

Foto: Leonardo Lourenço/Portal da Copa#Alemães e amigo paulista em bar da Zona Leste, ao lado da arena: "O ambiente aqui é melhor que o da Fan Fest"Não foi fácil comprar ingressos para os jogos da Copa do Mundo no Brasil. Em algumas fases da venda, era preciso contar com a sorte. Em outras, disposição para acordar mais cedo – ou dormir mais tarde – do que os outros. A concorrência, porém, não garantia entradas nem mesmo para quem passasse a noite toda em branco.

Eram quase 18h e as seleções de Bélgica e Coreia do Sul já se preparavam para iniciar o segundo tempo da partida da última rodada da fase de grupos, nesta quinta-feira (26.06), na Arena Corinthians. Alguns funcionários começavam a desmontar a barreira colocada cerca de 200 metros depois da estação Artur Alvim do metrô que antes funcionou como o primeiro ponto de verificação de ingressos para o jogo – dali, só os portadores de bilhetes podiam prosseguir em direção ao estádio.

O alemão Marco Pfeiffer, 28, dava as costas para o local, sentado numa mesa na mesma posição que ocupava havia umas duas horas. Estava acompanhado de outros dois amigos compatriotas e do paulista Roberto Guedes, 48, que havia conhecido meses antes. Nenhum deles tinha ingresso, mas não pareciam preocupados. Gastavam mais energia devorando três bolinhos de carne de frente para a televisão que mostrava os lances da partida disputada ali perto.

“O ambiente aqui é melhor que o da Fan Fest”, repetia ele, num bar na avenida doutor Luis Aires, uns 500 metros longe da arena. Era a segunda vez na semana que ele se dirigia a Itaquera para ver um jogo da Copa. Não no estádio, mas num dos botecos próximos ao ponto que separa os “com-ingressos” dos “sem-ingressos”. “Vim ver Holanda e Chile (que também foi disputado na Arena Corinthians, no dia 23), e foi divertido por causa dos chilenos”, contava Pfeiffer. “Este é um bairro muito legal, de pessoas simples. É assim que conhecemos a cidade de verdade”.

Festa

O personal trainer Fernando Augusto, 33, é vizinho do bar onde os alemães viam o duelo entre belgas e coreanos. Dizia ter se desfeito de dois ingressos que tinha para ver uma das partidas das oitavas de final, neste final de semana, no Maracanã. “Eu comprei, mas vendi. Vou sair daqui para ir até o Rio?”, ria. “Está assim todo dia, fica cheio de gente. Essa semana os holandeses pediam para a gente torcer para eles, e nós tirávamos onda. Prefiro ficar aqui zoando com os caras”. A festa formada na região de Itaquera fez até alguns turistas mudarem a percepção que tinham do país. “Alguns ingleses vieram preparados para enfrentar o caos que pintaram por tanto tempo. Saíram apaixonados pela cidade”, lembrava Augusto.

Havia muita gente na redondeza. Uma praça, na frente, estava cheia de crianças brincando no playground. Os mais velhos arrumavam um espaço em frente às TVs que estavam ligadas na Copa. Outros, porém, só queriam acompanhar o movimento. “É uma energia muito boa. Uma mistura de raças, de línguas. Todos se dão bem, sem violência”, afirmava a aposentada Diva Mariano Vicente, 56, após cerca de uma hora de viagem de trem de Franco da Rocha, cidade da Grande São Paulo, só “para ver a turma entrar” junto de uma amiga.

Não era a primeira vez de Diva em Itaquera. Ela já tinha ido ao estádio para ver a vitória uruguaia sobre a Inglaterra, dias antes. “Somos duas aposentadas, sem nada para fazer. Vou deixar de vir?”, perguntava. “Estou amando, não tem coisa melhor. Só de sentir o cheiro da Copa... De casa não tem como ter noção disso tudo”.

De mochila

“Foi uma coincidência chegar a São Paulo no dia do jogo da Bélgica”, dizia a belga Marie Vlecken, 19, enquanto se esgueirava para enxergar a TV da calçada. “Estou amando o entusiasmo do povo com o torneio”. Era uma primeira impressão, ainda. Fazia cerca de 20 minutos que havia chegado, direto do aeroporto, de onde saiu sem nem pegar as malas. Voltaria para Cumbica mais tarde para buscar a bagagem, não queria perder a movimentação no entorno da Arena Corinthians.

Estava acompanhada do amigo Alex Zamora, peruano de 25 anos, fotógrafo, que clicava os que tomavam conta da rua. “Adoro fotografar as pessoas, como elas interagem, como elas fazem a cidade ganhar vida”, filosofava. Ambos vieram a São Paulo para mochilar. Estavam sem roteiro, sabiam apenas que dormiriam as próximas duas noites na casa de um conhecido e as seguintes na de outro – contatos feitos através da internet.

“Eu me interesso pela relação com outras culturas. Fico feliz só de estar aqui”, disse Marie, que logo se enturmou com um pessoal que tentava, como ela, ver parte do jogo. Ganhou uma cerveja, fez alguns amigos. E nem tinha ingresso para isso.

Leonardo Lourenço, do Portal da Copa em São Paulo

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