Voluntário paraplégico ajuda turistas no centro de São Paulo

06/07/2014 - 17:07
Com cadeira de rodas hightech, Carlos destacou importância da atuação do cientista Miguel Nicolelis na abertura da Copa

Adalberto Leister Filho/ Portal da Copa#Ele é um dos voluntários que mais chamam a atenção entre os que atuam na região da Fan Fest no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo. Carlos Nantes Doriguello, 36, é paraplégico desde o nascimento, o que não diminuiu a vontade de fazer parte de um evento tão importante para o Brasil como a Copa do Mundo. Ele é o único cadeirante entre os cerca de 900 voluntários que atuam em programa do governo federal na capital paulista.

“Fiquei sabendo do programa por acaso, por intermédio de uma amiga. Me inscrevi de última hora e fui aprovado”, conta ele, que trabalha em casa, das 9h às 15h, em uma empresa de Call Center. À tarde, tem o tempo livre para participar do programa.

Carlos passou por treinamento online e com 16 horas presenciais para se capacitar para a atuação durante o Mundial. “Foi um curso detalhado, que nos deu noção de mobilidade, turismo, receptividade e segurança, entre outros itens”, afirmou ele, que desenvolveu uma verdadeira cadeira de rodas high tech para poder se movimentar com mais facilidade pelas ruas de São Paulo.

Ele transita pelo centro da cidade com um motor acoplado à parte da frente de seu equipamento. “Ele atinge 30 km/h. É o limite para não ser necessária uma licença especial para transitar”, conta Carlos. “Tenho que me segurar para não atingir essa velocidade aqui”, brinca, ao passar por um trecho de chão plano e liso na estação São Bento do metrô.

O material é fabricado nos Estados Unidos, e o voluntário demorou algum tempo até conseguir juntar os R$ 8.000 para importar seu meio de transporte. Mas Carlos não se limitou a isso. Inventivo, ele desenvolveu uma série de equipamentos e adaptações para facilitar sua vida. Apesar da existência de calçadas rebaixadas, rampas de acesso e ônibus adaptados, transitar por São Paulo é, de fato, ainda bem complicado para um deficiente físico. “Como cadeirante, sei quais são minhas necessidades. A partir daí, busco soluções”, conta.

A cadeira de rodas conta com buzina e lanternas, para avisar os carros de sua presença em via pública. Por conta de espaço ou de calçadas desniveladas, muitas vezes é necessário transitar na rua. Como em um carro, há espelho retrovisor, para facilitar as manobras quando entra em um ônibus ou desce uma escada rolante. Outro item inusitado é uma câmera de ré.

Ao alcance da mão, Carlos adaptou um porta-squeeze de bicicleta. “Para um cadeirante, é muito ruim se movimentar segurando uma latinha de refrigerante entre as pernas”, justifica.

A cadeira de rodas tem até GPS e TV. Dá para assistir aos jogos da Copa do Mundo, mesmo quando está atuando em algum ponto lateral da Fan Fest, sem poder visualizar o telão. “É como se estivesse em um carro confortável, em que você não quer sair. Tento fazer da cadeira de rodas uma experiência o mais agradável possível”.

O próximo objetivo do voluntário é fazer um GPS de acessibilidade. A ideia é guiar outros cadeirantes pelos pontos de São Paulo em que é possível transitar, com mapas e comandos de voz iguaizinhos aos usados nos automóveis. “Quando saio de casa, todos os dias, não sei o que vou encontrar pelo caminho, que dificuldades vou ter de enfrentar. Gostaria de ajudar outros cadeirantes como um guia para se locomover de forma mais fácil por São Paulo”, conta ele, que desenvolve o projeto sozinho, ainda sem patrocínio.

A Copa do Mundo já teve uma vitória marcante para ele, e não foi por causa de nenhum gol da seleção brasileira. Mas, de certa forma, devido a um golaço de um brasileiro. Carlos se emocionou, durante a cerimônia de abertura da Copa, com a imagem de um paraplégico chutando uma bola a partir do comando do cérebro e com a ajuda do exoesqueleto, desenvolvido pela equipe do cientista Miguel Nicolelis.

“É muito importante o simbolismo que essa imagem carrega”, analisa ele. “Mostra que é possível um paraplégico voltar a andar. E mostra que o Brasil tem condições de manter uma pesquisa desse nível. Dá uma certa expectativa em relação à minha condição, apesar de eu já ter me habituado com essa deficiência”, conta.

Adalberto Leister Filho, do Portal da Copa em São Paulo

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